Fases do Luto: O Despreparo da Sociedade para um Processo Natural

Perder um ente querido é uma das experiências mais difíceis e inevitáveis da vida. No entanto, a sociedade muitas vezes falha em preparar adequadamente as pessoas para lidar com o luto, um processo natural e complexo que envolve diversas fases. Este artigo explora as diferentes etapas do luto e como a sociedade, muitas vezes focada em produtividade e positividade, não oferece o suporte necessário para enfrentar essa jornada desafiadora

1. Fases do Luto: Uma Jornada Complexa:
O luto é um processo multifacetado, e as fases pelas quais uma pessoa passa podem variar amplamente. Embora o modelo mais conhecido seja o proposto por Elisabeth Kubler-Ross – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação – é importante destacar que esse modelo não se aplica a todos de maneira linear. Cada indivíduo vivencia o luto de maneira única, com intensidades e ordens distintas de emoções.

  • Negacão:
    A fase inicial muitas vezes envolve a negação da realidade. As pessoas podem se sentir atordoadas e incapazes de aceitar a perda. Nesse momento, a sociedade, muitas vezes impulsionada por uma cultura de produtividade, pode pressionar os enlutados a seguir em frente rapidamente, ignorando a necessidade crucial de processar a negação.
  • Raiva:
    A segunda fase é marcada por sentimentos de raiva. Os enlutados podem sentir raiva da pessoa que partiu, de si mesmos, de Deus ou do universo. No entanto, a sociedade muitas vezes desconforta-se com a expressão aberta de raiva, o que pode levar os enlutados a reprimir essas emoções necessárias para a cura.
  • Barganha:
    Na fase de barganha, as pessoas muitas vezes tentam fazer acordos imaginários para reverter a perda. A sociedade, frequentemente despreparada para lidar com essa fase, pode minimizar essas tentativas como irracionais, não compreendendo que são uma parte crucial do processo de aceitação gradual.
  • Depressão:
    A tristeza profunda caracteriza a fase de depressão. A sociedade muitas vezes tem dificuldade em lidar com a tristeza prolongada, pressionando os enlutados a “superá-la” em prazos irrealistas. Isso pode resultar em sentimentos de inadequação e isolamento para aqueles que ainda estão enfrentando a dor.
  • Aceitação:
    A fase final do luto não significa esquecimento ou ausência de dor, mas sim uma aceitação da nova realidade. A sociedade frequentemente não reconhece que essa aceitação pode levar tempo e que a cicatrização é um processo contínuo.

2. A Sociedade e a Falta de Preparação para o Luto:

  • Ênfase na Produtividade:
    Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade e o movimento constante para a frente. O luto, entretanto, é um processo que requer pausa, reflexão e aceitação. A falta de compreensão sobre a necessidade desses momentos pode resultar em pressões injustas sobre os enlutados para que “superem” suas perdas rapidamente.
  • Evitação do Assunto:
    Existe uma relutância geral em abordar o tema do luto. A sociedade muitas vezes evita conversas sobre tristeza e perda, criando um ambiente no qual os enlutados podem se sentir isolados e incompreendidos. Essa falta de diálogo contribui para o estigma em torno do luto.
  • Expectativas Irrealistas:
    A sociedade frequentemente impõe expectativas irrealistas sobre como as pessoas devem lidar com o luto. Desde o retorno rápido ao trabalho até a pressão para manter uma atitude positiva, as expectativas muitas vezes não refletem a complexidade e singularidade do processo de luto.

3. Superando os Obstáculos Culturais:

  • Promovendo a Conscientização:
    Uma abordagem mais compassiva em relação ao luto começa com a promoção da conscientização. Educadores, profissionais de saúde e líderes comunitários podem desempenhar um papel fundamental na sensibilização sobre as várias fases do luto e na desconstrução dos mitos associados a elas.
  • Fomentando a Empatia:
    A empatia é uma ferramenta poderosa para superar a falta de preparação da sociedade para o luto. Ao incentivar a empatia, podemos criar espaços onde os enlutados se sintam ouvidos, compreendidos e apoiados em vez de pressionados a se conformar com expectativas infundadas.
  • Incentivando o Diálogo:
    Promover uma cultura que incentive o diálogo aberto sobre o luto é crucial. Isso pode envolver a criação de espaços seguros para discussões, a normalização do compartilhamento de experiências de luto e o fornecimento de recursos para aqueles que precisam de apoio.


O luto é uma jornada pessoal e complexa, e a sociedade desempenha um papel significativo na forma como os enlutados enfrentam esse processo. Superar a falta de preparação requer uma mudança cultural em direção à aceitação, compreensão e empatia. Ao abraçar a complexidade do luto e fornecer o suporte necessário, podemos criar uma sociedade mais compassiva e solidária para aqueles que enfrentam a perda de um ente querido.

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